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Monopoly: A história por trás do jogo de tabuleiro mais vendido da História

O jogo que nasceu com o intuito de crítica social continua sendo um sucesso até os dias atuais

Raphaela de Campos Mello Publicado em 26/10/2020, às 18h53 - Atualizado às 18h55

Tabuleiro do jogo Monopoly - Divulgação
Tabuleiro do jogo Monopoly - Divulgação

Se você for um bom jogador, poderá enriquecer e se destacar entre os competidores. A promessa contida no Monopoly, o jogo de tabuleiro mais vendido da História, é a própria alma do capitalismo traduzida de um jeito lúdico e cativante. Quem não quer ser o maioral, se não na vida, ao menos na brincadeira?

Acontece que a ideia original do jogo era diametralmente oposta. Pode ser difícil de acreditar, mas o Monopoly, com mais de 250 milhões de unidades vendidas no mundo inteiro, nasceu com o objetivo de chamar a atenção das pessoas para a desigualdade social e a ânsia acumuladora do sistema calcado na propriedade privada.

Como nos conta a obra It’s All a Game – The History of Board Games from Monopoly to Settlers of Catan, de Tristan Donovan, a existência desse fenômeno comercial se deve ao impacto de um livro na mente e no coração de uma mulher. O livro: Progresso e Pobreza, escrito pelo economista norte-americano Henry George e lançado em 1879; a mulher: Elizabeth Magie, escritora e inventora, moderna para a época, nascida em 1866, em Illinois, nos Estados Unidos.

O mundo em que Magie vivia estava profundamente rachado. No final do século 19, os EUA chafurdavam no abismo gerado pelo avanço da Segunda Revolução Industrial. De um lado, homens de cartola, bengala e bigodão ostentavam fortunas inimagináveis – vindas, sobretudo, da exploração do petróleo e do aço –, e, de outro, operários maltrapilhos, reféns de cargas horárias abusivas no chão das fábricas, sobreviviam até onde a miséria lhes permitia.

Enquanto alguns aplaudiam a prosperidade dos magnatas e elogiavam seu filantropismo, outros contestavam a exploração do trabalho e a expansão dos monopólios. Ouviam-se os primeiros burburinhos sobre a luta de classes e a criação de sindicatos como meios de retomar o poder pela base da pirâmide.

Tentativa de igualar as classes

O economista Henry George estava entre os que se compadeciam da desigualdade social e se sentiam na obrigação de fazer algo a respeito. E nada como um bom plano para mudar a ordem das coisas. Foi o que ele fez. No livro Progresso e Pobreza, George apresenta a teoria da Single Tax, um jeito eficaz, segundo ele, de combater a disparidade econômica na sociedade americana.

O economista acreditava que terras eram uma bênção de Deus e qualquer aumento em seu valor provinha justamente do trabalho braçal das classes populares. Logo, o dinheiro que os proprietários ganhavam simplesmente por terem terras pertencia a todos. Para ser justo, o governo deveria, então, transferir essa riqueza para a sociedade, taxando as terras.

A renda dessa tarifa seria tão vultosa, projetava George, que todos os outros impostos poderiam ser abolidos. Assim, o povo poderia ficar com os lucros de seu próprio trabalho e, de quebra, a terra teria um uso mais produtivo. “O plano acabaria aumentando a renda dos trabalhadores e evitando que proprietários acumulassem riqueza de maneira parasitária sem fazer nada para merecer isso”, esclarece Donovan.

Apesar de rejeitado por boa parte dos conservadores, temerosos de que a taxa reduzisse ao invés de encorajar investimentos, o livro de Henry George não só virou best-seller como também provocou um novo movimento político: os single taxers, ansiosos por ver a teoria se tornar realidade.

O sonho de uma inventora

Quando recebeu de seu pai uma cópia da publicação de George, Progresso e Pobreza, Elizabeth Magie já tinha criado e patenteado um aparelho que permitia colocar mais facilmente papel nas máquinas de escrever. Naquela época, menos de 1% das patentes era propriedade de mulheres.

Fascinada pela teoria da taxa única, ela não se contentou em aderir ao movimento: tornou-se secretária do Clube Feminino da Taxa Única, em Washington. Após a morte do economista, em 1897, Magie fez questão de seguir batalhando por seus ideais, embora a corrente tenha se enfraquecido.

Como as palestras que ministrava sobre o assunto estavam alcançando poucas pessoas, teve uma ideia melhor. “Em 1902, ela inventou um jogo de tabuleiro para trazer à vida os argumentos de George, como forma de demonstrar os danos que os proprietários monopolizadores causavam e como a taxa de propriedade era a cura”, conta Donovan. A criação, que futuramente seria um sucesso descomunal, só que com a alcunha Monopoly, se chamou Jogo do Proprietário (The Landlord’s Game, em inglês).

As regras da versão original do jogo são familiares a muitos de nós. Os participantes circulavam pelo tabuleiro munidos de dinheiro falso. Com ele, podiam adquirir lotes, ferrovias e serviços. Uma vez donos de algum endereço, passavam a ter o direito de cobrar aluguel de qualquer um que parasse por ali e ainda podiam construir prédios para aumentar o valor da cobrança.

Outras casas do tabuleiro impunham o pagamento de impostos ou o sorteio de uma carta – afortunada ou danosa. A cada volta completa, os jogadores passavam por uma casa marcada como “Trabalho sobre a Mãe Terra produz salários”, e coletavam US$ 100. Num canto do tabuleiro, havia o alerta: “Não ultrapasse. Vá para a prisão”.

Esse espaço, explicou Magie em um artigo do Single Tax Review, eram terras de um lorde britânico e representava a “propriedade estrangeira de solo norte-americano” – numa clara menção à colonização britânica na América do Norte. Quem caísse nessa casa era mandado para a prisão no canto diagonalmente oposto, onde ficaria até tirar dois números iguais nos dados ou pagar uma multa de US$ 50.

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